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terça-feira, 15 de abril de 2008

Se o inconsciente falasse..


Era ainda de manhã e a menina do capuchinho vermelho estava impaciente (ainda sem o capuchinho obviamente)...A mãe tinha uma missão para ela. Sendo uma criança pré-púbere, cujo inconsciente e o consciente se imiscuíam, ela sabia que era nesse dia que a sua vida ia mudar. Todas as crianças neste novo mundo de contos de fadas eram assim. De repente, ouve os passos da mãe no corredor e vira-se para olhar o objecto que esta transportava: uma cesta de vime de onde saía o odor de bolos frescos e mel caseiro. Espreitou para dentro e viu ainda algumas maçãs.
- Filha, tens que levar isto à casa da avó que fica depois da floresta…
- Por onde devo ir?
A mãe sabia que no mundo onde o inconsciente não era digno desse nome não valia a pena fazer jogos, mentiras piedosas, enigmas ou qualquer coisa dentro do género.
- Tens dois caminhos, a estrada e a floresta. Não vejo porque não ires pela estrada convencional, mas tu é que decides, já és uma mulherzinha…
- Não não sou! Ainda não sou menstruada! - Disse a menina abespinhada.
- Agora vais ser - afirmou a mãe enquanto lhe colocava o capuchinho vermelho vivo.
A capuchinho não disse mais nada, limitando-se a dar um beijo na cara à mãe e despedindo-se.
Era óbvio que ia pela floresta. Que há de interessante numa estrada igual a todas as outras? Antes perder-se no meio de árvores inofensivas do que ser atropelada…
Embrenhou-se pela floresta e começou a saltitar pelo caminho, sentindo o poder hormonal que se ia apoderando dela a pouco e pouco. Os sons estranhos não a assustavam, ela sabia que mais tarde ou mais cedo ia encontrar algo de inesperado e que ia mudar a sua vida para sempre.
Foi rápido, surpreendente e, de certo modo, reconfortante, ainda que de uma maneira distorcida e completamente "fora": O Lobo surgiu na clareira e roubou-lhe a cesta.
- Mas que faz uma menina tão bonita num sítio tão escuro para a sua beleza?
- Sejamos francos, eu sei que a cesta é só um pretexto para me papares, seu malvado.
- Pois, és bonita e esperta. Não sabes é de que maneira te quero "papar".
- Porquê, há muitas maneiras? Dá-me um chupa.
- O quê??
- Estão na cesta, eu trouxe para o caminho - respondeu ela imediata e secamente
O lobo meteu a pata na cesta, mas...
- NÃO!! Com essa pata porca não! Usa um lenço.
Deu-lhe o chupa e olhou para ela.
- Não te quero papar, só quero a cesta. Para onde vais?
- Para casa da minha avó, na orla da floresta.
- Não pedi a descrição..mas obrigado, já tenho refeição - afirmou o animal provocante.
- Come, eu não gosto nada dela, é chata e faz-me andar quilómetros só para lhe dar bolinhos que não pode fazer porque tem tempo de reformada a mais... - O sarcasmo corria nas veias da rapariga precoce.
O lobo partiu espantado, as crianças do mundo sem inconsciente controlado eram cada vez mais ariscas. Não parava de pensar na insinuação da rapariga. Não posso, sou um lobo, devia era comê-la e não deixar ossinho...

O capuchinho vermelho continuou até à casa da avó. Bem, a velhinha inocente já não ia chatear mais..Naquele mundo não havia inconsciente, mas a consciência tinha então que se misturar com o que dele restava, sendo o resultado um lugar estranho para as crianças, que lidavam com desejos que supostamente deviam ser inconscientes, como ver-se livre da pobre avó, de uma maneira perfeitamente casual, não lhe dizendo a razão quando parar. Basicamente, eram quase sobredotadas no que se referia às emoções dos outros e ao mundo em si, mas muito pouco sabiam sobre elas próprias, excepto o que não deviam.
Avistou as telhas laranja por trás de uma macieira que já dava frutos. Viu uma maçã brilhante e vermelha no chão. Bem hoje tudo indica que vou ceder a uma tentação, ou então vou tornar-me uma mulherzinha. Agarrou na maçã e meteu-a no bolso da casaca. Estava tudo silencioso e a avó não estava com o seu habituado ar pasmado na cadeira de baloiço do alpendre. Um jornal encontrava-se pousado no seu lugar. A capa mostrava duas crianças da sua idade, cada uma com um barrete e de sorriso de orelha a orelha, com uma casa coberta de doçuras atrás. "Hansel & Gretel - Vendedores de Doces". Bem, pelos vistos os dois irmãozitos naquele mundo tinham tido uma gota de esperteza, não fugiram da casa depois do homicídio, em legítima defesa, da bruxa, aproveitando toda a doçaria para venda. Noutras divisões da manchete, podiam ler-se notícias acerca da futilidade das princesas, que tinham decidido viver todas juntas com o dinheiro dos seus príncipes; de um feijoeiro até ao céu que conduzia a um parque de diversões e do abandono de três porquinhos pela mãe biológica.
Pousou a publicação e entrou na casa, verificando que o lobo estava na cama, mas fingindo-se despercebida:
- Avó, porque estás deitada?
- É para te receber melhor... - Disse o lobo na sua pior imitação de idosa.
- Ah...estás doente..pobrezinha..deixa-me ver se tens febre.
O lobo não esperava que o raio da miúda se metesse nos lençóis sem mais nem menos.
- A menos que não tenhas feito a depilação, não és a minha avó. O que lhe fizeste?
- Papei-a, como sugeriste.
- Epá, será possível? Isso é daqueles desabafos, não vês que era família? - Disse numa voz que agora fazia notar um leve arrependimento.
- Desculpa! Eu faço tudo para te compensar!
- Fazes...?
- Sim.
- Torna-me mulher. - Afirmou resolutamente.
- O quê? COMO?
- Não sei, mas sei que os rapazes têm alguma coisa a ver com isso. Tu é que deves saber.
- Olha, eu sou um animal que saciou a sua fome, acho que precisas de voltar para casa e fazer perguntas à tua mãe...estás na idade para isso.
- Não disseste que havia outra maneira de papar?
- Desculpa, mas não posso, és menor, esta polícia não tem inconsciente, mas é bem consciente das leis e essas não permitem abuso de menores. Tenho que ir tratar da saúde a uns certos porquinhos...A minha digestão demora apenas duas horas, tenho que comer. Porta-te bem.
E saiu correndo nas quatro patas com uma touca ridícula na cabeça que se esqueceu de tirar.
A menina do capuchinho vermelho olhou para uma foto da avó na cabeceira da cama. Como pude eu querer que ela morresse? Ela era a minha avó.Uma lágrima caiu no chão e o arrependimento encheu toda a sua mente, quer esta tivesse restrições ou não. Sentiu a maçã e tirou-a do bolso, observando-a. Aquele mundo era como a maçã: tinha sabor, mas não tinha forma única, as pessoas praticamente não tinham nada de secreto para elas, eram todas iguais por dentro; o que as tornava especiais não se mostrava (assim, no nosso mundo pode ver-se que não é apenas o exterior que forma o indivíduo). Contudo, tal como o fruto, podiam adoptar diferentes cores (exterior físico ), mas paladares semelhantes, ainda que não totalmente iguais (interior, que se assemelhava em todos os seres humanos), podendo existir atracção sem inconsciência, embora não houvesse amor no sentido lato. E foi assim que, cedendo às tendências orais como uma criança com inconsciente controlado, que a menina comeu a maçã tornando-se mulher.

No nosso mundo isto estaria errado pois a interpretação dos contos sugere que a dependência oral é sinónimo do infantil. A criança só se torna independente como pessoa quando deixa a dependência da oralidade. Mas este mundo não é contrário ao nosso? As atitudes têm que ser também contrárias. Porque se tornou mulher? Porque devorou o símbolo do seu mundo criando um próprio no interior da sua pessoa: o inconsciente como unidade independente.

Não sabemos como foi a vida da menina após este incidente, mas acreditamos que tenha ido viver para outro mundo: o seu próprio, deixando aquele para sempre, para sua alegria. Como seria se o inconsciente falasse, como naquela dimensão?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Contos tradicionais portugueses

Um dos objectivos do nosso trabalho é também a análise do conto português, sua estrutura e respectivos elementos. Muitas vezes torna-se difícil separar a lenda deste estilo narrativo, uma vez que a oralidade associada aos contos lhes confere diferentes versões e significados.
Os contos tradicionais do povo lusitano são conhecidos pela sua afinidade com a religião e pela sua carga simbólica. É interessante verficar como a tradição oral de um povo o retrata a si e à sua história, sendo por isso um modo fiel de caracterizção de uma cultura.
Se atentarmos em determinados contos como "O Menino Sem Olhos" ou "O Caldo de Pedra", descobrimos uma característica tão nossa conhecida e tão incutida nas nossas raízes: a capacidade de improvisação e a astúcia. Se por outro lado, nos debruçarmos sobre as lendas regionais, que procuram explicar a origem das cidades ou dos seus nomes, verificamos que quase sempre se baseiam em milagres ou em acontecimentos históricos em que um homem se distingue pela sua coragem e perspicácia. No entanto, as histórias tradicionais portuguesas são também conhecidas pela sua violência, como é visível no conto há pouco referido, "O Menino Sem Olhos", em que um rapaz arranca os seus próprios olhos a pedido do irmão. Contudo, como já aqui explicámos, a violência presente nas histórias não prejudica a criança nem a incita a actos violentos, pelo contrário! O desfecho em que o "homem mau" é castigado ou perdoado, veicula a ideia de que temos sempre oportunidade de nos redimirmos dos nossos erros.
Atentando agora na simbologia do conto tradicional português, "levantamos um pouco o véu" no que diz respeito à sua simbologia. Falemos então da "encruzilhada".
Simbolicamente, a ideia da escolha aparece representada na situação do sujeito perante a encruzilhada. Profundamente enraizada, a simbologia da encruzilhada tem já uma longa tradição em inúmeras culturas e encontra-se presente em muitos contos. Os pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste), dão-nos a dimensão de um espaço imaterial, o espaço das possibilidades a seguir. Parado no cruzamento entre dois caminhos, o homem está como se estivesse no centro do mundo, diante de um leque de alternativas. Ele tem quatro caminhos, quatro destinos, e um deles é o seu. Geralmente, a chegada do herói ao cruzamento corresponde ao clímax da narrativa e antecede o seu desfecho que depende do caminho escolhido pelo personagem referido.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Histórias que batem forte...

O comportamento de uma pequena de cinco anos e meio de idade, conforme conta o pai, pode ilustrar como é fácil a uma criança sentir que ela é a Gata Borralheira. A rapariga tinha uma irmã mais nova, por quem sentia muitos ciúmes. A pequena gostava muita d'A Gata Borralheira, porque a história lhe oferecia material para ela act out os seus sentimentos e porque, sem as suas imagens, teria dificuldade para os compreender e exprimir. Esta pequena costumava vestir-se com muito esmero, gostava de vestidos bonitos, mas tornou-se desleixada e suja. Um dia, quando lhe pediram que fosse buscar sal, ela disse, enquanto o fazia: «Porque é que vocês me tratam como se eu fosse a Gata Borralheira?» Quase perdendo a fala, a mãe perguntou-lhe: «Porque é que pensas que te trato como a Gata Borralheira?» - «Porque vocês me obrigam a fazer o trabalho mais penoso da casa!», foi a resposta da pequena. Tendo, por esta forma atraído os pais para dentro das suas fantasias, ela acted out as mesmas mais abertamente, simulando varrer toda a porcaria, etc. Ainda foi mais longe, fazendo como se estivesse a arranjar a irmãzita para o baile. Mas ela fez melhor do que a Gata Borralheira; baseada no seu entendimento inconsciente das emoções contraditórias fundidas no papel da Gata Borralheira, disse noutra ocasião à mãe e à irmã: «Vocês não deviam ter ciúmes de mim só porque sou a mais bonita da família.»"

extraído de "A Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O Natal das bruxas

No castelo tenebroso, estava um ambiente de cortar à faca! As três bruxas não faziam outra coisa senão resmungar, lamentar-se e dar largas à fúria, com pontapés nos gatos e vassouradas nos morcegos.
- Não há dúvida! - berrava a mais velha. - Vivemos aqui há séculos e nunca o Pai Natal se lembrou de nós!
- Nunca, por nunca ser, tivemos um presente no sapatinho!
- No sapatinho? Tu queres dizer é no sapatão. Ora olha bem para o tamanho do teu pé. Calças para aí o quarenta e quatro – respondeu-lhe a irmã mais nova, cheia de maldade, ou não se chamasse ela Rosa Maldosa.
Ao ouvir aquilo, Rita Maldita saltou de trás do caldeirão onde borbulhavam poções maléficas e deu-lhe um estalo.
- Toma que é para aprenderes. Já sabes que não tolero que falem do tamanho dos meus pés! (...)
- És horrorosa, Rosa Maldosa!
- E tu nem chegas a ser parva... és parvalhita, Rita Maldita!
A irmã do meio assistia, abanando a cabeça com visível enfado. Como é que haviam de ter presentes, se se portavam daquela maneira? Brigas constantes afugentavam qualquer Pai Natal bem intencionado. Gostaria de lhes fazer ver que assim não ganhavam nada
(...)
- Vamos ao Pólo Norte dizer umas verdades ao Pai Natal!

- Boa ideia! (...)
Num ápice, foram ao baú onde guardavam as casacas de toupeira para ocasiões muito especiais e agasalharam-se. Não era preciso deitarem-se a adivinhar. Sabiam que o vento daquelas bandas era gélido!
Depois assobiaram para chamar as vassouras, montaram e lá foram pela janela fora! Nenhuma confessou, mas iam radiantes! (...)
O Pai Natal, coitado, quando as viu pela frente teve um baque. Que lhe quereriam aquelas três loucas? O mais certo era virem empatá-lo e o pior é que já só tinha uma semana para organizar os lotes das prendas. Tentou encontrar uma boa desculpa para as mandar embora, mas elas não lhe deram tempo e desataram numa gritaria infernal.
- Viemos protestar!
- Exigimos justiça!
- Nós também temos direito. Queremos prendas!
- Prendas como as outras pessoas!
- Não temos culpa de sermos bruxas.
- Nascemos assim, temos que fazer maldades.
- Foi por isso mesmo que nos deram estes nomes começados por mal: Maldosa, Maldita, Maldição!
O pobre velhote deitou as mãos à cabeça. Que havia de fazer para se ver livre delas?
- Vocês sabem muito bem que não posso dar presentes a quem faz patifarias - arriscou com voz débil.
A resposta veio sem frases que se atropelavam num frenesim:
- Patifarias? Patifarias não!
- Asneiras! Pequenos disparates como toda a gente.
- Claro! Somos bruxas, fazemos bruxarias.
- Tudo coisas sem importância: poções para tornar amargo qualquer doce, pozinhos para as crianças poderem arreliar as pessoas mais velhas ou xaropes para as pessoas mais velhas obrigarem os mais novos a irem para a cama. (...)

Receando que discutissem toda a noite, o Pai Natal ordenou:
- Calem-se! Se não se calarem imediatamente garanto-vos que nunca na vida hão-de receber um presente.
A ameaça funcionou. Muito juntas foram-se chegando para ele. Pela conversa, pareceu-lhes que encarava a hipótese de as presentear.
- Vão-se embora - pediu o Pai Natal, agora mais calmo. Deixem-me trabalhar sossegado.
Não prometera nada, mas havia qualquer coisa no tom de voz que lhes deu esperança. Esperança de ver um daqueles lindos embrulhos cair pela chaminé. (...)
Nunca mais chegava a noite de Natal. Nunca mais chegava a hora de saber se desta vez, sim, seriam contempladas. Mas valeu a penal Era meia-noite em ponto quando ouviram uma restolhada sobre as telhas. (...)
Da chaminé desciam lentamente três embrulhos, tão lindos como nunca tinham visto outros!
Ansiosas, precipitaram-se para saber qual era o seu. E o coração derreteu-se-lhes quando deram com os olhos nos cartõezinhos:
- Oh! Já viste o que o Pai Natal escreveu?
- Que querido!
- Adoro o Pai Natal!
- É o velho mais simpático do universo!
A alegria tinha razão de ser. O Pai Natal, em vez de usar os nomes delas, escolhera outros mais a seu gosto: Rita Bonita, Rosa Cheirosa, Conceição Bom-Coração.
Nunca ninguém lhes tinha chamado assim e sentiram-se tão felizes que, por um momento, desejaram proceder como o Pai Natal, apeteceu-lhes alterar as coisas, substituir malefícios por benefícios, enfim, apeteceu-lhes deixar de ser bruxas.
Mas quem é que pode fugir ao seu destino?
Ainda não tinha batido a uma hora, já andavam à bulha com inveja do presente das irmãs.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, O Natal das Bruxas

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Comadre Morte - conto tradicional português


Havia um homem que tinha tantos filhos, tantos que não havia ninguém na freguesia que não fosse compadre dele e vai a mulher teve mais um filho. Que havia do homem fazer? Foi por esses caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre.
Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.
– Quero; mas tu sabes quem eu sou?
– Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho. – Pois, olha, eu cá sou Deus.
– Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.
Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.
– Quero; mas sabes tu quem eu sou?
– Não sei.
– Pois, olha, eu cá sou a Morte.
– És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.
Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:
– Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira é sinal que o doente não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.
Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as orelhas; mas se ela estava aos pés receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior! Mas vai uma vez foi a casa dum doente muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:
– Deixa estar que eu te arranjo, e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam os pés e ele escapa.
Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:
-Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.
– Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.
– Pois reza.
Mas ele rezar; qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele.
Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do bem que ela lhe tinha feito e disse:
– Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua alma.
Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:
– Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.
O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais; pois não era?


(Beira Baixa) Adolfo Coelho
in Contos Populares Portugueses

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Velho, o Rapaz e o Burro